O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo na quinta-feira (5), pouco antes de ser submetido a um julgamento político (o impeachment paraguaio) no Congresso. O anúncio foi feito em vídeo nas redes sociais. Peña disse que tomou a decisão “pensando na estabilidade” do país e pediu desculpas à população, sem assumir responsabilidade pela crise. Pela Constituição, o vice-presidente Pedro Alliana deve completar o mandato, que vai até agosto de 2028. O próprio Partido Colorado, de Peña e do ex-presidente Horacio Cartes, tinha anunciado apoio ao processo de afastamento.
A crise começou nesta semana, quando o Banco Central do Paraguai (BCP) interveio no Ueno Bank para liquidá-lo, porque a solvência do banco tinha caído para menos da metade do mínimo exigido. O Ueno era o banco com mais clientes do país, cerca de 2,9 milhões, e tinha por volta de US$ 2,8 bilhões em depósitos. As contas foram bloqueadas, as agências fecharam e o aplicativo parou de funcionar. Segundo a imprensa paraguaia e estrangeira, órgãos públicos tinham cerca de US$ 850 milhões no banco. Desse total, o Instituto de Previsión Social (IPS), a previdência dos trabalhadores, confirmou US$ 355 milhões, cerca de 9% da sua carteira. A estatal de energia Ande e a hidrelétrica de Itaipu também tinham recursos lá. O fundo garantidor cobre até 75 salários mínimos por pessoa, cerca de US$ 38 mil (perto de R$ 205 mil). O BCP prometeu um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, cerca de US$ 1.675. Peña foi acionista da Ueno Holding até 2025 e já tinha chamado de “campanha mentirosa” as denúncias de conflito de interesses. O presidente do BCP, que antes dirigia a financeira do grupo, também renunciou, e o principal acionista do banco e diretores se entregaram à Justiça.
O caso tem pontos em comum com a história do Brasil. Fernando Collor renunciou à Presidência em 29 de dezembro de 1992, no início do julgamento do impeachment no Senado, que mesmo assim o condenou e suspendeu seus direitos políticos por oito anos. Em março de 1990, o Plano Collor havia bloqueado por 18 meses o dinheiro que os brasileiros tinham na poupança e nas contas bancárias acima de um limite. Há diferenças: no Brasil, o bloqueio foi uma decisão do governo para todo o sistema, enquanto no Paraguai o congelamento atinge um banco em liquidação. A associação dos bancos paraguaios diz que o restante do sistema opera normalmente, mas o guarani se desvalorizou cerca de 8% desde o início da crise.
Com informações de Público, EFE, Forbes Argentina e Banco Central do Paraguai
Montagem | Fotos: Santiago Peña (perfil oficial) e Fernando Collor (retrato oficial da Presidência da República), via Wikimedia Commons






